Baião

1946. O cenário musical brasileiro passava por um período de calmaria quando, de repente, as rádios, os coretos, os cafés, os restaurantes, as ruas foram tomadas por uma música que chamava a atenção por seu ritmo, sua letra, sua alegria.   Seu nome:
BAIÃO
Eu vou mostra pra vocês
Como se dança um baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção
Morena chegue pra cá
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião
Eu já dancei balanceio
Chamego, samba e xerém
Mas o baião em um que
Que as outras danças não têm
Quem quiser é só dizer
Pois eu com satisfação
Vou dançar cantando o baião
Eu já dancei no Pará
Toquei sanfona em Belém
Cantei lá no Ceará
E sei o que me convém
Por isso eu quero afirmar
Com toda convicção
Que sou louco pelo baião.
Sim, esta era esta música, cantada por Luís Gonzaga – que logo receberia o apelido de “O Rei do Baião” – que se tornou o grande sucesso de uma época.
Além de Luiz Gonzaga, outros intérpretes se encantaram pelo gênero: Carmélia Alves, Claudete Soares, Luiz Vieira, 4 ases e l coringa foram os que mais sobressaíram.  Mas até mesmo Silvana Mangano, a célebre atriz italiana que encantou o mundo com sua interpretação no filme ARROZ AMARGO, dirigido por Giuseppe de Santis, gravou um baião: Baião de Ana.
Mas onde surgiu este ritmo?  Gilberto Gil em, DE ONDE VEM O BAIÃO”, de 1976, nos diz:
Debaixo do barro do chão
Da pista onde se dança
 suspira uma sustança sustentada
por um sopro divino
que sobe pelos pés da gente
e de repente se lança
pelas sanfonas afora.
E o nome? Em entrevista publicada em 1972 Luís Gonzaga diz que “… o baião já existia como coisa de folclore. Eu o tirei do bojo da viola do cantador, quando faz o tempero para entrar na cantoria e dá aquela batida, aquela cadência no bojo da viola.  A palavra também já existia. Um dizem que vem do baiano, outros que vem de baía grande…”
Alguns folcloristas como Joaquim Ribeiro, por exemplo, confirmam que ela era conhecida anteriormente como “baiano”, que vem do verbo “baiar”, forma popular de “bailar”. Ou seja: baião significa “bailão”.
Há quem ligue o baião ao fado e ao samba, além de influências africanas comuns em quase todo gênero musical brasileiro. Mas, tenha que influência tiver, o baião se transformou em música tipicamente nordestina.
Tarik de Souza nos diz que “Como outros gêneros, o baião designou inicialmente um tipo de reunião festeira dominada pela dança.”
Foi Luís Gonzaga quem propagou e tornou o ritmo em sucesso.  Segundo Tárik, “O sucesso de Gonzaga na empreitada foi tão grande que ele desequilibrou o eixo da MPB do meio para o fim dos anos 40 até meados dos 50.”
Humberto Teixeira (o Doutor Baião) e Zé Dantas foram parceiros importantes nessa empreita de Luís Gonzaga. Com eles, o Nordeste estava definitivamente dentro do mercado musical brasileiro, atraindo outros compositores de grande qualidade como João do Vale, Luís Vieira, Guio Moraes, Hervê Cordovil, etc., etc.
Mas, mesmo com todo o sucesso, o baião entrou em declínio no final dos anos 50. Na década de 60 teve ligeira reabilitação com a gravação de ASA BRANCA, por Geraldo Vandré, e Gonzagão (assim chamado depois do sucesso de seu filho Gonzaguinha) se tornou um ícone. Artistas como Caetano, Gil, Gal, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Sérgio Ricardo, Dominguinhos (seu discípulo direto), etc., etc. homenagearam o mestre.  E não é para menos. ASA BRANCA, PARAÍBA, JUAZEIRO, RESPEITA JANUÁRIO, QUI NEM JILÓ, NO CEARÁ NÃO TEM DISSO NÃO, RIACHO DO NAVIO, ASSUM PRETO, SABIÁ NA GAIOLA, BAIÃO DE DOIS, KALU, CINTURA FINA e tantos, tantos outros baiões ficaram para sempre na alma de nosso bravo povo brasileiro.

 

Autor: Yassir Chediak

 

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